Ana em entrevista a Revista Istoé Gente
Ana Paula Padrão

“Já chorei em reportagens”
A apresentadora do Jornal da Globo revela seu desejo de ter filhos, conta que chora diante de reportagens emocionantes e tem medo de se perder em São Paulo

Uma pena os fãs de Ana Paula Padrão não assistirem a sua vida atrás das câmeras. Descobririam que, apesar de ser jornalista da Globo há 15 anos, onde já cobriu histórias como a guerra do Kosovo e o governo Taliban no Afeganistão, ela tem coração de menina. Aos 37 anos, âncora do Jornal da Globo desde 2000, Ana também é engraçada, adora a bagunça das feiras de rua, ri muito e não disfarça o brilho dos olhos ao falar do marido, o economista Walter Mundell, 49 anos, com quem está casada há um ano (antes, viveu durante nove anos com o jornalista Marcelo Netto). Em breve, o casal vai trocar a cobertura onde vive por uma casa que está sendo reformada. Eles se despedem com beijos duas, três vezes antes do trabalho. “Estou na melhor fase da minha vida”, diz a jornalista nascida em Brasília.

Você mantém um visual clássico por causa da televisão?
É da minha personalidade. Se eu fosse uma pessoa que gosta de um cabelo, de uma cor a cada semana, que muda do corte mais espetado ao mais romântico, provavelmente teria problema em televisão. Não penso nessa questão porque é muito difícil eu radicalizar na mudança de imagem. Meu cabelo sempre foi ou um chanelzinho mais moderninho, ou um chanelzinho acima no ombro. Nunca passa disso. Sou tradicional, tenho usado a mesma cor de batom nos últimos dez anos e não mudo de guarda-roupa a cada estação. Me acostumo com os hábitos e gosto de mantê-los, como o mesmo fornecedor de carne, o sapateiro da esquina, a pessoa que corta meu cabelo.

Você demonstrou que tem interesse nas mulheres de hoje em dia na série de reportagens Revolução Feminina. Por que quis tratar desse assunto?
Estava sendo muito procurada por mulheres que queriam saber como eu equilibrava a carreira e a vida pessoal, como repórteres de revistas femininas e associações de classe de mulheres que me convidam para palestras. O que atrai as mulheres em geral no meu perfil é que nunca deixei de ser mulher. Sou muito menininha. Uso saia, penteio o cabelo, faço a unha, não pareço um homem trabalhando. É uma tendência a mulher querer ser profissional sem se masculinizar.

Como é o seu jeito feminino de trabalhar?
Descobri que sou adepta do tipo de gestão feminina que é uma gestão mais baseada em parceria com outras pessoas, mais horizontal, menos hierarquizada. As mulheres gostam de trabalhar em grupo, dividir coisas, fazerem projetos. Homens tendem a trabalhar de forma vertical. Gosto de dividir, fazer, descobrir o que cada um pode te dar de melhor, descobrir os talentos de cada um, não tentar impor o meu projeto às pessoas. Se um editor meu gosta mais de internacional, mas está na área política, é um desperdício de energia.

Quando você sai na rua sente os olhares sobre você?
As pessoas que estão comigo percebem isso. Eu, honestamente, não percebo. Talvez seja a maneira que encontrei de me proteger para me sentir bem, tranqüila e à vontade andando por aí. Só percebo que me olham quando me pedem autógrafo, ou uma foto, o que acontece bastante e não é um problema. Se eu me tornasse uma pessoa completamente anônima, faria muito pouca diferença. Sou igual a qualquer mulher da minha geração. O que me dá prazer é a casa, a relação com meu marido, fechar um jornal bonito.

Já se emocionou apresentando o Jornal da Globo?
Enquanto estou dizendo alguma coisa é difícil ser tomada pela emoção porque estou concentrada. Mas na hora de assistir a uma matéria, sim. Em alguns momentos até paro de ver, olho para o lado e fico só ouvindo, esperando a deixa para respirar e voltar. Dá aquele nó na garganta, embarga a voz. Quando demos a matéria do desabamento em Belo Horizonte em que só retiraram um menino dos escombros, nossa, eu estava vendo a imagem pela quinta vez e ainda assim me emocionei. Quase não consegui continuar falando. Sorte que eu só tinha que chamar o repórter senão eu ia engasgar, chorar no ar, ia ser um vexame! (risos)

Engasgar no ar a preocupa?
Hoje não. Me sinto muito mais à vontade no estúdio do que quando cheguei ao Brasil (após quase três anos como correspondente em Londres e Nova York). Quando comecei (como apresentadora do Jornal da Globo) me senti muito insegura porque bancada é diferente de rua. Na bancada, tudo o que você faz pequenininho parece enorme. Me sentia emparedada pelo estúdio. Levou mais de um ano para eu começar a me sentir segura. Ainda tenho muito a aprender. Tem gente que faz isso há tantos anos, como o Carlos Nascimento, que é um animal de estúdio. Ainda sou um animal de rua, estou me acostumando com o estúdio.

Mesmo tendo feito cobertura de guerras ainda se abala com cenas tristes?
Que bom, senão seria hora de mudar de profissão. A mesma sensibilidade que te emociona numa matéria, te leva a encontrar uma notícia. Só que numa guerra você tem que criar uma defesa, uma casquinha, durante a cobertura.

Já chorou em reportagens?
Já chorei. Uma vez eu estava no campo de refugiados na Macedônia e pude ficar duas horas sem ter matéria para fazer. Então assisti a um jogo de futebol organizado pelo exército inglês, que promovia atividades para as crianças não ficarem muito infelizes. Aí vi um menino de uns 8 anos jogando o tempo todo com as mãos no bolso. Pensei: “Será que ele se queimou, que perdeu os dedinhos?” Quando acabou o jogo a monitora perguntou a ele. Aconteceu o seguinte: quando o garoto chegou, 10 dias depois de fugir dos sérvios pela floresta, estava com a roupa toda estragada. Aí doaram uma calça. E a calça (pausa) era grande para ele (embarga a voz). Ele estava segurando a calça (contém o choro). Eu chorei tanto, mas tanto! Já consegui fazer meu trabalho em situações de muito medo e tristeza. Mas fui chorar no travesseiro depois.

Nas matérias de risco sentiu medo de morrer?
Tem coisas que fiz nas primeiras coberturas de guerra que eu não faria mais. Em Kosovo, eu, a produtora e o câmera decidimos seguir um comboio de 40 ônibus, num jipe que não era blindado, por caminhos que não estavam protegidos pela Otan. Passamos pelo último tanque de proteção e um francês nos alertou, mas continuamos. Na estrada principal acompanhamos pelo mapa, mas depois o comboio entrou por uns atalhos e perdemos a noção. Aí começaram a aparecer às posições sérvias, sacos de areia acumulados, tijolinhos, casinhas. Não dava para parar porque corríamos o risco de eles atirarem. Ficamos sem saída. Foram 40, 50 minutos de agonia. O tempo inteiro senti medo de morrer.

E como vocês fizeram para escapar dessa situação?
Quando o comboio de ônibus parou saltamos com as mãos para o alto, o câmera mostrando a bandeira do Brasil na câmera e gritando: “Brazilian press!” (imprensa brasileira). Os soldados ficaram mais assustados do que nós até que veio até mim um soldado que falava um inglês rudimentar. Começou um papo simpático e quebrou um pouco o gelo. Mas é delicado quebrar o gelo porque é um exército que está ali há meses. Estavam todos bêbados. A simpatia tem que ser medida eram duas mulheres na equipe.

É mais difícil ser mulher nas coberturas de guerra?
Em alguns lugares a que fui no Afeganistão só consegui entrar porque sou mulher. Cobria a cabeça e vestia roupas tradicionais paquistanesas com véu e tudo. Muitas mulheres me receberam por causa disso. Jamais deixariam entrar um homem em casa, numa escola clandestina de meninas. Tive que abrir mão da minha cultura, das minhas referências, para não me sentir agredida por não poder sentar no banco da frente do carro, por exemplo.

Acha que quando tiver filhos vai conseguir fazer o mesmo tipo de cobertura com tranqüilidade?
Não sei como vou pensar quando eu tiver filhos. Conheço mulheres que tiveram filhos e não mudou muita coisa. Outras mudaram radicalmente. Não sei como vou me comportar. Não sei o quanto um filho vai mudar a minha percepção de risco. Mas já não sou camicase. Não quero virar a heroína que morreu na cobertura.

Pensa em ter filhos logo?
Penso em filhos, quero ter filhos. Não tenho muito mais tempo para ficar pensando muito nisso, não, vou fazer 38 anos. Tenho que resolver isso daqui a pouco. Antes eu não planejava e nem imaginava que um dia ia ter que pensar tanto. Foi por causa do Walter, meu marido. Quando eu o conheci sabia que ia casar com ele! Me senti tão à vontade, tão tranqüila que pensei “ah, se for para sempre com ele, tá tudo bem”. Foi a primeira vez que levei a sério o projeto de ser mãe.

Casar de véu e grinalda era um sonho seu?
Nunca sonhei nem em me casar numa cerimônia formal. Por isso casei em casa. Não foi de véu e grinalda, usei um mantô de musseline, tipo um capuz que prendia na alça do vestido com uma capa para trás. Era uma coisa anos 50. Casei num vestido de noite, bem bonito, claro, cor de creme, justo até o quadril. Mas parecia uma noiva mesmo, não ia casar de terno!

Demorou a se adaptar a São Paulo?
São Paulo me deixou angustiada no primeiro ano. Hoje gosto muito da cidade. Mas tenho medo de andar sozinha em São Paulo e me perder. Sou muito desorientada, me perco com facilidade. Morria de medo de andar no Parque do Ibirapuera! Quase espalho feijãozinho para seguir!

Quando se perdeu na rua?
Uma vez aqui no meu próprio bairro saí para andar num domingo e começou a ameaçar chover, o céu ficou preto e eu não tinha a menor idéia de como ia voltar para casa. Ia ser muito estranho eu parar numa banca de revista e falar: “Olha, eu moro na rua tal, você pode me dizer onde é?”. Então entrei num supermercado, comprei meia dúzia de coisas e pedi entrega. E fui seguindo o menino da entrega até em casa! (risos) Cheguei antes da chuva ainda! Norte, sul, leste, oeste não é comigo. Mas com um mapinha eu ando até no Afeganistão!


No seu apartamento, em São Paulo, Ana Paula Padrão deixa a emoção fluir na entrevista a Juliana Lopes.


Observando a nova trama global, a minissérie A Casa das Sete Mulheres, cheia dos seus erros históricos, dos quais o público nem se dá conta, é possível traçar um paralelo interessante, com a imprensa. Na verdade, é possível e até necessário falar de muito mais que sete mulheres na imprensa nacional, mas só para a analogia ficar mais acessível, atemo-nos em apenas sete atuais.

O papel da mulher na imprensa tupiniquim é bem mais amplo do que se imagina, bem mais portentoso do que os das mulheres da outra casa. Todavia, por inúmeros fatores, incluindo aí um latente preconceito e descabido despeito por parte dos ditos homens da imprensa, esse papel não é reconhecido, ou então relegado ao segundo escalão. Mas não cabe essa discussão agora, apenas as comparações. Finalizando a lista das sete mulheres da imprensa, não poderia faltar Ana Paula Padrão. Tida como "padrão de jornalismo" e prata da Globo, Ana Paula é facilmente associável à personagem Mariana (Samara Felippo).

Não é difícil entender as semelhanças. A da série, impetuosa e lutadora, também atende por ousada e atrevida, com um jeito diferente de falar o que pensa sem ser penalizada, mesmo quando foge do ortodoxo. Ana, como é tratada pelos colegas de redação, premiada jornalista, não é diferente das características citadas anteriormente. Num local onde não é costume sair do padrão, ela impõe o seu próprio, falando o que quer, mesmo que não pareça ousadia no momento, sem arriscar-se a penalidades. Inova e ganha espaço por sua simpatia e comportamento hodierno no que se refere a telejornalismo.

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