Ana Paula Padrão é a escolhida da Globo
A jornalista passa a ocupar, a partir de 31 de julho, a vaga de Lillian Witte Fibe no 'Jornal da Globo'. Até lá, Carlos Tramontina fica no ar
Depois de quase três meses de negociações e muito suspense, a Rede Globo finalmente chegou a uma conclusão: Ana Paula Padrão será a substituta de Lillian Witte Fibe no Jornal da Globo. Na disputa pela vaga também estavam os jornalistas Mônica Waldvogel, César Tralli, William Waak e Carla Vilhena.

A data para a nova âncora assumir seu posto no telejornal será 31 de julho.
Até lá, Carlos Tramontina continuará ocupando o lugar deixado por Lillian - durante esses três meses, ele manteve os mesmos índices de audiência alcançados com a antiga apresentadora.

A explicação para a demora da emissora em divulgar o nome do substituto de Lillian foi por causa das negociações entre a Globo, Ana Paula e seus diretores em Nova York, onde há um ano a jornalista atua como correspondente internacional. Neste período, Ana Paula veio várias vezes ao Brasil para participar de reuniões, até, finalmente, fechar o acordo. Quem poderá ficar em seu lugar na Big Apple será a repórter Zileide Silva.

Coberturas políticas
A nova apresentadora das noites da Globo está há doze anos na emissora, mas começou a ocupar posição de destaque quando passou a fazer coberturas sobre política e alguns comentários de economia em Brasília.
Depois disso, entrou no revezamento com outros jornalistas na apresentação do Jornal Nacional aos sábados e, há apenas dois anos, iniciou a carreira como correspondente internacional. Antes de Nova York, Ana Paula trabalhou em Londres.

Olimpíada
Antes de decidir quem ocuparia o lugar de Lillian, Ana Paula estava cotada para ser uma das correspondentes da Olimpíada de Sydney, em setembro, mas com o novo posto, a emissora ainda não sabe dizer se ela vai para a Austrália ou não.
Além do cargo de apresentadora, Ana Paula ficará também com o de editora-executiva. A vaga de editor-chefe - que também era de Lillian - ficou com Ricardo Melo, ex-editor executivo do programa.

Começou com forte apoio da emissora a fase Ana Paula Padrão do Jornal da Globo, o último do dia, que vai ao ar por volta das 23h30. Mais magra, vestida com sóbria elegância, linha das sobrancelhas acentuada, cabelos escurecidos e com impecável corte Channel, a tarimbada repórter Ana Paula Padrão, que fez corajosas reportagens em Kosovo e recentemente no perigoso Afeganistão, tremeu ao sentar-se na bancada de apresentadora. Mas foi só no primeiro dia e nos primeiros minutos. Logo dominou com segurança o nervosismo e conduziu um bom primeiro programa. O segundo seguiu o padrão Ana Paula de qualidade. A apresentadora vem tendo a ajuda de alguns dos melhores repórteres da emissora: Caco Barcelos, com o furo de reportagem mostrando o apartamento do juiz Lalau em Miami, na segunda-feira; William Waak, dando uma força à nova tendência do eleitor, de cobrança e exigências; Heloísa Vilela, de Nova York, mostrando as fotos chocantes de 50 anos do Prêmio Pulitzer; Ernesto Paglia, do mercado de Istambul, na Turquia, acompanhando uma trabalhosa pechincha, etc. Com Waak, houve uma inovação: ele foi chamado à bancada para conversar sobre a tendência do eleitor. Interessante ter um repórter falando, com outra ênfase e outra linguagem, sobre um assunto em que se tornou um momentâneo especialista. Muita coisa não cabe na linguagem da reportagem e este revelou-se um complemento válido.

A apresentadora é ajudada também pelo primeiro time de comentaristas da emissora. Por fim, é inevitável comparar seu estilo com o da antiga apresentadora, Lillian Witte Fibe. Houve um avanço: Lillian era uma espécie de atriz da notícia, uma atriz sem técnica de controle vocal, o que resultava em entonações e desafinações desagradáveis; Ana Paula é uma jornalista que tem densidade, autocrítica e deixa a notícia falar por si.

Ana em entrevista a Folha de SP. Agradeço à Beatriz Naddi por ter me enviado.
Após se aventurar pelo Afeganistão, a jornalista Ana Paula Padrão enfrenta outro desafio a partir do dia 7: substituir Lilian Witte Fibe no "Jornal da Globo". Nascida em Brasília há 34 anos, é repórter há 15 e já foi correspondente em Nova York e Londres. Filha de uma locutora de rádio e de um advogado chegou a ser professora de balé, mas desistiu da carreira por causa da notícia. "Trabalhei muito para chegar onde estou", diz.

O que muda no "Jornal da Globo" com a sua estréia como apresentadora?
Olha, ninguém quer reinventar a pólvora. O que queremos é fazer um jornal que seja visualmente mais moderno, com um conteúdo um pouco mais denso. Mas continua sendo um jornal de notícias, já que as pessoas querem chegar em casa e ver as novidades do dia, saber do que aconteceu.

O que significa ser mais denso?
Quem não viu o "Jornal Nacional" quer ver notícia. Elas têm de estar no ar -e vão estar. Mas quem já viu outro jornal e leu os periódicos do dia quer um pouco mais. Esse espectador quer uma explicação melhor, um passo a mais na notícia, uma nova notícia... e isso é o que tentaremos fazer no "Jornal da Globo".

Mas vai haver mudanças estruturais significativas?
Isso tem de ir sendo feito aos poucos. Tenho primeiro de conhecer bem a cabeça das pessoas com as quais vou trabalhar, e elas têm de ir se adequando ao novo projeto do jornal.

Você sempre foi mais repórter do que apresentadora. E agora? Vai se afastar um pouco da reportagem?
De jeito nenhum. É uma questão de perfil, não tem saída. Não sou apresentadora, nunca fui. Sou repórter, apuradora. E vou estar apurando todos os dias. Claro que nos primeiros tempos vou ter de me preocupar mais com a forma do jornal, com a equipe etc. Mas nunca vou deixar de apurar. É isso que sei e o que gosto de fazer. Vou inclusive sair para fazer reportagens. O que, aliás, está dentro do projeto de fazer um jornal itinerante, que esteja mais na rua, que seja mais quente.

Surgiu assim a idéia de levá-lo para Sydney? Haverá uma cobertura especial da Olimpíada para seu jornal?
Sim, é essa a idéia de itinerante. Vou apresentar o jornal de Sydney, sempre com notícias quentes. Nesse ponto, seremos o jornalístico da Globo mais privilegiado em relação ao fuso horário. Daremos notícias de esporte, claro, mas manteremos uma equipe em São Paulo tocando o restante do jornal.

Diferentemente de outros jornais, você vai para o "Jornal da Globo" como editora-executiva e não como editora-chefe, cargo ocupado agora por Ricardo Mello..
Nossa equipe está trabalhando muito em grupo, tudo é discutido, com todos. Hierarquicamente respondo a um editor-chefe, claro, com quem, aliás, me dou muito bem... Não tenho problema com o poder, não estou interessada em poder, mas sim no jornal que vai ao ar.

A Lilian Witte Fibe acabou de fechar contrato com um site. Você se interessa por Internet, pensa em investir nisso?
Nesse momento, todas as minhas energias estão concentradas no "Jornal da Globo". E, se eu tiver de pensar em Internet, será um projeto voltado para ela.

Qual a maior dificuldade de um correspondente? É chegar a um país desconhecido, sem fonte alguma?
Tudo é entender a cabeça das pessoas. Se você conhece a cabeça de um ministro a ponto de saber que ele não seria capaz de tomar tal atitude, você está muito mais perto da notícia. Isso serve para um político em Brasília ou um refugiado em Kosovo. Acredito que o jornalista é uma pessoa que chega a um lugar, entende o que está acontecendo e transmite isso.

Mas não é cansativo mudar tanto de cidade, até de país, como aconteceu com você nos últimos anos?
Adoro mudanças, desafios. E sou muito prática. Por exemplo, aluguei meu novo apartamento em São Paulo em uma manhã. Embarco em setembro para Sydney, e não dava para adiar a estréia do jornal. Então tive de me virar.

Como você começou na TV?
Nunca tive intenção de fazer TV, sempre quis trabalhar em jornal. Quando estava na faculdade, fazia uns frilas para a revista "Senhor", e o editor de lá ficava me dizendo que eu tinha rosto e voz para a TV. Até que, no fim de 86, esse mesmo editor me apresentou ao chefe da retransmissora da extinta Manchete em Brasília. Fiz um teste e, no dia seguinte, fui contratada. Menos de seis meses depois, a Globo me chamou... e foi isso.

O que você se orgulha de ter feito profissionalmente no Brasil?
Foi ajudar a levar a economia para a rua, torná-la mais compreensível. Sempre firmei minha carreira nisso, de fazer com que a economia fosse algo visualmente agradável na TV, que as pessoas entendessem que ela ocupa um papel fundamental na vida delas. Sinto-me privilegiada de ter feito a cobertura jornalística dos planos econômicos, de ter colaborado para melhorar a vida das pessoas nesse sentido.

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