

Ana capa da revista Quem
De passagem pela Coréia e Japão para a cobertura da Copa na TV Globo, Ana Paula Padrão diz não estar sentindo muita dificuldade para adaptar-se aos dois países, já que costuma se informar bastante antes de qualquer viagem. Seu maior problema, no entanto, assim como para a maioria dos jornalistas que trabalha nesse mundial, está sendo o idioma. "Pouca gente fala inglês. Acabamos usando a linguagem universal dos gestos. Dia desses, eu pedi ao serviço de quarto do hotel, pelo telefone, que me trouxessem sabonete - soap, em inglês. Dez minutos depois bate um funcionário na minha porta com um fumegante prato de sopa - soup, em inglês", conta.
A Coréia foi novidade para a jornalista, que já conhece o Japão. Ela cobriu o maior acidente nuclear do país, em outubro de 1999, em Tokaimura, quando trabalhava como correspondente em Nova York.
Apesar da rotina de trabalho puxada, Ana faz o que mais gosta: jornal da rua e muitas reportagens. "Acordo às seis da manhã para começar a preparar o jornal. Vejo tudo o que foi feito no dia anterior e defino qual será o material produzido de manhã. Trabalho com o Mariano Boni, que é um excelente editor, e fechamos juntos a parte 'japonesa' do Jornal da Globo. Apresento por volta das 11 e meia, almoço - quando dá tempo, e depois sigo para fazer alguma reportagem. Tenho procurado dormir por volta das dez da noite, para estar inteira no dia seguinte", disse.
Tempo para passear ela ainda não teve e duvida que venha a ter. Também não tem se cuidado muito com relação à alimentação. "A comida coreana, por exemplo, é condimentada. Como tenho o estômago sensível, acabei comendo 'fast food' na maior parte do tempo."
A ida de Ana Paula para a Copa já estava acertada desde o fim do ano passado. E ela não pára. Às vésperas de completar dois anos no comando do jornal, vira e mexe parte para nova missão-relâmpago. Aos 36 anos de idade e 16 de profissão, voltou ao Afeganistão para cobrir a entrada da Aliança do Norte e a derrocada talibã, um ano depois de ter estado no país para uma série de reportagens. Também mostrou a crise argentina ao passar o dia em Buenos Aires para trazer notícias quentinhas.
Mas a jornalista ainda quer muito mais. "A rotina de viagens não cansa, só me anima. Já tenho planos aprovados pela Globo para outras viagens, assim que terminar a cobertura das eleições presidenciais. E embalo um novo sonho: uma série na África sobre os excluídos da globalização", revela.
Quem pensa que o trabalho atrapalha a vida pessoal da jornalista se engana. Ela adora o que faz, se diverte e já o considera parte da sua vida pessoal. "Não divido muito as duas coisas. Sinto um imenso prazer na profissão e na rotina que ela me oferece. E quando não estou trabalhando gosto de coisas simples como cozinhar, ler, ir ao cinema. Um fim de semana em casa, lendo, pra mim, é muito prazeroso! Não tem mistério."
O curioso na vida de Ana Paula é que para descansar, ela também viaja. E de preferência, para fora do país. "Quando fico no Brasil, acabo não resistindo à tentação de dar uma olhada no noticiário. Aproveito parte das férias para dormir, porque tenho bastante insônia. Sempre que posso vou a Nova York, onde morei dois anos, para visitar meus amigos. Mas também gosto de lugares remotos, totalmente desconhecidos, hotéis afastados, um pouco de isolamento. O que não curto é badalação", conta.
Durante a Copa, é inevitável que a jornalista se misture à torcedora. "Um estádio cheio, com aqueles blocos de torcedores verde-amarelos, a entrada do time em campo, tudo isso é muito emocionante! Não há como não torcer", disse. Vencida a Bélgica, a Seleção Canarinho segue em busca do penta. Disputamos as quartas-de-final com a Inglaterra. "Qualquer previsão é puro palpite, mas acho que chegaremos, sim, muito longe nessa Copa."
24/06/2002
Crônica da Ana Paula...
Voltamos a falar de um jogo que vai entrar para a história. Uma cobrança de falta a 35 metros do gol. Um jovem atacante gaúcho determinado a mudar o placar. E em poucos segundos, o mundo do futebol rendeu-se ao talento do nosso time. A partida entre Brasil e Inglaterra foi um daqueles jogos para não se esquecer jamais.
A audácia, e disso os ingleses que conquistaram o mundo sabiam muito bem, é o que faz a diferença. "Quando aparece um gênio o melhor é ficar quieto em sinal de respeito", disse o jornal espanhol "El País" sobre o gol de Ronaldinho. De fato, surpreender um goleiro é até fácil. Mas audácia foi surpreender também os 47 mil espectadores no estádio.
Há muito que se diz que o futebol moderno abandonou a beleza do espetáculo pela luta por resultados. Nosso time na Copa ainda tem esses reflexos do que sempre foi a essência do futebol brasileiro: a de ser o melhor produtor mundial de individualidades que desequilibram.
Mas o jogo contra a Inglaterra mostrou que nossa essência também mudou. Foi um time de cabeça fria diante da adversidade. Concentrado, disciplinado e lutando com fibra diante de um adversário respeitado. Junto do instinto que traz o momento de gênio, são qualidades que não apenas podem levar um futebol a ser campeão. Elas são um grande resultado, muito além de vitórias ou derrotas no campo.
27/06/2002
Mais uma crônica da Ana Paula...
Última escala: Yokohama
Chegar a Yokohama foi à última escala de uma viagem impensável até bem pouco tempo atrás. Há quase 40 dias a seleção saiu do Brasil desacreditada, criticada. E não era para menos: durante a fase eliminatória, tivemos 6 derrotas e 2 demissões de treinador. Mas aqui na Ásia tudo mudou: os talentos individuais superaram as dúvidas - e o Brasil está a um passo do título que nenhuma outra seleção do mundo pode ostentar.
Se é verdade que amadurecer é sofrer, nesta Copa do mundo o time brasileiro nos tornou mais sábios e tolerantes. Transformou o ceticismo benevolente de muitos torcedores na mesma eufórica paixão de sempre.
Mas paixão pela seleção agora é uma paixão diferente: parece mais a dos velhos amores que resistiram a todas as provas. Conhecemos melhor os defeitos e as fraquezas do time, sempre acreditando que ele vai lutar pelos nossos sonhos -- e que irá mais longe do que qualquer outro.
Não é um time de personalidades dominantes. Não tem supremos heróis. Nem vilões com cara de mau. Mas de vitória em vitória sofridas, a seleção brasileira amadureceu aquilo que só as competições difíceis trazem: harmonia e espírito de luta.
Para a pátria que sempre calçou chuteiras, só vencer nunca foi suficiente. Era preciso também convencer. A seleção que bateu os turcos para decidir pela sétima vez uma Copa do Mundo já nos convenceu de muitas coisas. E uma das principais talvez seja a idéia de que somos tão bons no campo por que também sabemos sofrer.