Ana na capa da Revista Criativa deste mês.
Poder Feminino
Aos 39 anos, Ana Paula Padrão edita e apresenta um dos telejornais mais importantes do país. Poderosa, nunca perdeu a ternura: ao se casar como manda o figurino, adotou o sobrenome do marido. E, como toda mulher, fica chateada se não dá tempo de fazer a unha

A mulher percebeu que não há sentido em ser, como nos anos 80, um homem de saias

A Ana Paula já quis ser Ana Pavlova. Até os 19 anos, passava os dias em pontas e meia-pontas. Chegou a se dedicar à dança e durante quatro anos deu aulas. Como Deus escreve certo por linhas tortas, não quis mais ser a bailarina russa, pendurou as sapatilhas, prestou vestibular e passou a se dedicar a outro sonho de infância, o jornalismo. Foi então que a brasiliense Ana Paula se tornou Ana Paula Padrão, uma referência, para não dizer um padrão, em sua profissão. Trocadilhos à parte, Ana Paula - séria, sóbria, esbanjando credibilidade - é, à frente do 'Jornal da Globo', uma espécie de unanimidade nacional. O corpo de bailarina, porém, mantém até hoje à custa de alguma ginástica, que detesta, e de expedientes longos, de cerca de dez horas por dia. Trabalha muito, sim, mas gosta do que faz e quer tudo bem-feito, acompanhando todo o processo, que em televisão inclui várias etapas. Asfixia? Claro, há momentos assim. Sobra pouco tempo para o resto, nunca está em casa à noite, nada de cinema e shows, nenhum lançamento de livro. 'É o preço', conforma-se.

Ela é uma mulher moderna com jeito antigo. Conquistou sua independência aos 15 anos, o que fez com que se interessasse pela autonomia de outras mulheres, brasileiras ou... afegãs. Mas fez questão de formalizar seu casamento com o economista Walter Brasil Mestieri Mundell, por quem se confessa 'apaixonada'. Para ela, assinar Ana Paula Padrão Mundell não é um problema. Pelo contrário. Já que a mudança de nome assinala a mudança de vida, pode ser uma solução. Ana Paula é da geração que começou a colher os resultados da luta feminista. Acredita que as gerações seguintes aproveitarão melhor as conquistas e tentarão ir em busca da feminilidade perdida. A revolução feminista foi radical, 'como toda revolução', e hoje, acredita, empreende-se a revolução feminina, o resgate de valores deixados para trás. 'A mulher percebeu que não há sentido em ser como nos anos 80, quando usava cabelos curtos, abusava de ombreiras e assumia voz grave do poder - um homem de saias.' Nem há sentido em assumir o trabalho esquecendo que pode gerar vida. Sem contar que o próprio homem se abrandou.

A meta é o ponto de equilíbrio. 'E o equilíbrio virá', diz. 'Sou otimista.' No campo pessoal, um dos sintomas desse ponto de equilíbrio foi o casamento com Mundell. Já moravam juntos, mas num lindo dia, como acontece nas histórias mais românticas, resolveram formalizar o casamento. A cerimônia, no civil, em setembro de 2002, incluiu vestido branco, véu e grinalda, fogos de artifício espocando no céu, sinos tocando na hora H e água com açúcar para a noiva. 'Fiquei tão emocionada que não me lembro de muita coisa. Parecia um sonho. Se fosse possível, gostaria de casar de novo.' Se isso ocorresse, Mundell, 12 anos mais velho, com certeza voltaria a ocupar o lugar do noivo. Para ele, sua ligação com a jornalista se explica pelo mistério do amor e pelo 'número infindável de qualidades que ela tem - a ética, a honestidade, a seriedade e a inteligência'. Ana Paula queria filhos, mas sabe que, aos 39 anos, a natureza já não é uma aliada. 'É cruel', reconhece. 'Se não tiver filhos, tenho de onde tirar felicidade. Meu casamento não depende disso. Depois, há a adoção.' Para ela, a maternidade postergada para depois da realização profissional, quando às vezes o corpo não está mais apto, é uma das falácias da revolução feminista.

Sou de uma geração que experimentou tudo.Mas nunca cedi à tentação da falta de ética


Receita de casamento? 'Primeiro, ter certeza de que é a pessoa que você ama. Depois, compartilhar o dia-a-dia, os projetos, os sonhos. O homem está buscando parcerias para ser feliz. Eu sou uma mulher feliz.' Ana Paula leva o casamento a sério. Acredita em valores como a fidelidade. Ela acha que o tecido moral está desgastado. As pessoas estão condescendentes e se apiedam, por exemplo, da moça que exibe o corpo. 'Coitadinha. Posou nua!' Justificam o ato de vender o corpo. 'Não sou moralista', alerta. 'Sou de uma geração que experimentou tudo. Mas nunca cedi à tentação da falta de ética.' Nada como ir à luta para resistir ao ganho fácil. É uma profissional bem-sucedida, como repórter, correspondente internacional e, há quatro anos, editora-executiva e apresentadora do 'Jornal da Globo', e vê com preocupação os novos jornalistas. 'Muitos pensam no objetivo final. Poucos estão preocupados com o caminho. Há uma glamourização da profissão. Não há glamour algum. A gente trabalha muito.' A amiga Guta Nascimento, editora executiva do 'Jornal Hoje', diz que Ana Paula colheu o que plantou. 'Ela tem uma carreira sólida. É uma supertrabalhadora. Desde cedo, corre atrás da notícia.'

É uma autêntica celebridade. Todos os dias entra na casa de milhões de pessoas. Mas administra mal a fama e sofre com a invasão de sua privacidade. 'Sou tímida. Por isso podem achar que sou esnobe. Não me incomodo que as pessoas me parem, falem comigo. Mas me incomoda que suponham coisas que não são verdadeiras. Como me atribuir falsos romances. Já aconteceu.' Afável, bem-humorada, tem consciência de que representa uma nova postura da mulher que trabalha. Sempre em busca da notícia, não esquece de fazer as unhas. Apesar de saber que é um tipo interessante - as mulheres lhe dizem -, não consegue se ver no vídeo com tranqüilidade. Quando tiver 50, 60 anos, estará longe da telinha, certo? Errado. Se depender de Ana Paula e do exemplo da televisão internacional, com homens e mulheres de cabelos brancos emprestando sua experiência à informação, estará na linha da frente. Sempre conscientizando. Como agora, que preparou, para os 40 anos da Globo, uma série de cinco reportagens sobre a mulher brasileira que vai ao ar em abril.

06/02/2005

Olha essa foto da Ana em 1998.

A Revista Imprensa está fazendo uma enquete para escolher as jornalistas que se destacaram em 2004. E a Ana esta concorrendo, ai galera entre no site e vote nela, a enquete vai até o dia 15/02. Por enquanto ela lidera.

16/02/2005

"Esse foi o mestre Jabor, num deslizezinho machista."
Ana Paula Padrão, apresentadora do Jornal da Globo

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