

Pingue-Pongue/Ana Paula Padrão
"O
repórter americano é muito mais
agressivo"
Recém-chegada
de uma viagem de três semanas à África, onde produziu uma série de reportagens,
a jornalista Ana Paula Padrão admite que o ano de 2002 foi realmente corrido.
"Fechei 2001 com a volta ao Afeganistão e depois não parei mais", observa essa
brasiliense de 36 anos. Além da Copa do Mundo - em que apresentou o Jornal da
Globo em diversas cidades da Coréia do Sul e Japão -, Ana Paula se dedicou à
cobertura das eleições e às entrevistas com os presidenciáveis. "Foi uma longa
preparação e que me tomou muito tempo. Mas o resultado foi excelente", avalia a
apresentadora.
No
entanto, foi o antigo sonho de realizar uma série de reportagens na África que
tomou grande parte de seu tempo em 2002. "A pré-produção para uma viagem destas
é muito demorada, principalmente porque fomos para uma região africana pouco
explorada pela mídia internacional", explica Ana Paula. Para a apresentadora, no
entanto, o empenho vale a pena. Parte do esforço de Ana Paula, por exemplo,
rendeu à jornalista o prêmio de melhor apresentadora de telejornalismo na
eleição Melhores e Piores 2002 de TV Press pela terceira vez
consecutiva.
PERGUNTA
- Você é conhecida por ser bastante dedicada ao trabalho. É verdade que você
estava de férias quando fez questão de voltar ao Afeganistão para cobrir a
tomada do poder pela Aliança do Norte?
ANA
PAULA PADRÃO - De fato, estava de férias. Tinha tirado uma semana e estava em
Istambul, que adoro. O Amaury Soares, diretor da Globo em São Paulo na época,
conseguiu o meu telefone com uma amiga da Globo, a única pessoa que sabia onde
eu estava, e me ligou. Ele disse que o conselho editorial da Globo queria mandar
a mesma equipe que tinha ido na primeira vez ao Afeganistão. Ou seja: eu e o
câmera Hélio Alvarez, que morava em Nova York. "Desde que termine as férias,
tudo bem", respondi. Era uma quarta e iria voltar ao Brasil no sábado. Era mais
fácil deslocar alguém de Londres, que é mais perto, por exemplo. Mas eles
queriam a primeira equipe, até mesmo para fazer comparações com a primeira
viagem. Aliás, foi o que aconteceu.
P
- Você poderia citar um exemplo?
APP
- Consegui encontrar um cara que trabalhava no governo talibã, tinha virado
casaca e estava trabalhando para a Aliança do Norte. É preciso lembrar que, da
primeira vez, as imagens eram clandestinas, captadas dentro do carro ou através
de uma microcâmera. Então, como pude circular livremente, fiz coisas que não
tive chance da primeira vez. Encontrei um grande mercado de câmbio que me
impressionou e que antes não pude entrar. Era um prédio meio destruído que
funcionava como uma casa de câmbio como em qualquer lugar. A imagem era de uma
bolsa de valores, só que naquele ambiente. Também filmei os hotéis, pois dá
primeira vez o único hotel aberto era controlado pelos
talibãs.
P
- Já a cobertura da Copa do Mundo foi bem mais tranqüila. Como foi produzir o
telejornal de várias cidades da Coréia e do Japão?
APP
- Adorei fazer o jornal itinerante. Como o Jornal da Globo tem uma ligação forte
com o esporte, por ter telespectador que espera para assistir aos gols da
rodada, queria fazer algo especial durante a Copa. Então, mesmo não sendo a
minha especialidade, sabia que podia fazer reportagens sobre o clima da Copa e
matérias de comportamento, pois já havia ido ao Japão três vezes. Coréia e Japão
são países com economias vibrantes e que rendem matérias excelentes. Então, a
gente nem precisou pedir. Quando se fez o planejamento da cobertura da Copa, se
pensou no JG para isso.
P
- Qual o fato da cobertura que mais a marcou?
APP
- A reportagem sobre o aumento da população de rua na capital japonesa foi
importante. Até porque houve uma família de Sorocaba que dizia ter reconhecido
um homem que apareceu no vídeo como um filho desaparecido desde 1996. Mas, até
hoje, não sabemos se ele era de fato o brasileiro Dênis. Até porque era um
mendigo, estava barbado... Procurei muito depois. Se ele fosse nissei ou sansei,
deveria falar um mau japonês. Na verdade, as pessoas também podem ter se
confundido com a imagem. Mas teve outra matéria que me marcou mais ainda na
Copa.
P
- E qual foi?
APP
- A minha grande história da Copa foi com aquele menino brasileiro que levei
para conhecer os jogadores da seleção. Acho isso porque foi natural e na área do
esporte. Seria diferente se fosse sobre economia ou comportamento, em que já
transito e são matérias produzidas. Aproveitei a oportunidade. Estava
acompanhando o treino e começou uma confusão no lado de fora porque a segurança
havia proibido a entrada de populares. Tinha muito brasileiro que só queria ver
o treino porque não tinha ingresso para o jogo. Os ingressos foram vendidos com
antecedência e eram muito caros. Tinha ido só assistir ao treino, pedi um
cinegrafista emprestado e fui filmar a confusão. O Eric estava no ombro do pai e
à beira de um ataque de choro. Perguntei se ele queria ir ver o treino e ele
aceitou. Para mim, a matéria acabava ali. Mas o cinegrafista foi filmando. O
assessor da seleção, Rodrigo Paiva, perguntou se não queria ir nos vestiários.
Fomos lá e o Rivaldo estava saindo. Ele, que devia estar com saudade dos filhos,
tirou as chuteiras e deu para o menino. Tudo casual, ajudado por um assessor com
bom senso.
P
- Já as entrevistas com os presidenciáveis não foram amenas. Você achou justa a
reclamação de que as entrevistas com os políticos foram
agressivas?
APP
- Para falar dos planos de governo, os políticos têm o Horário Eleitoral, que já
estava no ar na época. A nossa obrigação era falar de coisas sobre as quais eles
não queriam falar. Esta foi a linha mestra das entrevistas. Para isso, fizemos
uma preparação duríssima. Lemos todos os programas de governo e dezenas de
reportagens para que fizéssemos um trabalho esclarecedor para o
espectador.
P
- Nos Estados Unidos, os jornalistas têm uma postura bem mais crítica durante as
eleições. Você constatou isso como correspondente?
APP
- Sem dúvida. O repórter americano é muito mais agressivo. Os candidatos vão
preparados para perguntas difíceis nos debates. Mas acredito que a cobertura
destas eleições foi um passo gigantesco para nós. Fizemos uma cobertura de fato,
principalmente a Globo, e, por isso, as campanhas tiveram de andar mais rápido e
não apenas a partir do Horário Eleitoral. A cobertura começou mais cedo porque
havia demanda popular e o jornalista reage aos impulsos da população. Foi um
efeito dominó. Acho que oferecemos um produto isento e que tirou as dúvidas da
população.
Fonte: Correio da Bahia